Samuel Barbosa Macedo
A Ortopedia Funcional dos Maxilares como especialidade é nova, no entanto, como ciência, data de 1880 a partir dos estudos de Kingsley já apresentando características funcionais.
Pouco divulgada e, conseqüentemente, pouco conhecida em relação ao tratamento ortodôntico, é a parte da medicina estomatológica que estuda a etiologia e a gênese das alterações funcionais e morfológicas do sistema estomatognático e tem como objetivo investigar as causas que as produzem, eliminá-las, sempre que possível, reabilitar e reverter essas lesões o mais precocemente e, se necessário, desde o nascimento (PLANAS, 1997).
Prevenir é influir no desenvolvimento, procurando observá-lo, antecipando a ação e a presença da oclusopatia em si (SIMÕES, 2003), porque toda mal oclusão, conforme explica Balters (1949), é discoordenação de uma determinada função.
É justamente no contexto da prevenção que se encaixa o maior objetivo da ortopedia funcional: reverter interferências indesejáveis durante o crescimento e desenvolvimento fisiológico, atuando diretamente sobre o sistema neuromuscular que comanda o desenvolvimento ósseo dos maxilares, o qual pode levar os dentes a ocupar suas posições funcionais e estéticas, uma vez que os dentes e os maxilares são submissos às funções do espaço bucal, no que se refere ao seu crescimento e alinhamento e relações múltiplas (Cf. BALTERS, 1964; SIMÕES, 2003).
‘Os aparelhos ortopédicos funcionais mudam o recrutamento muscular, induzem o remodelamento ósseo e afetam a oclusão, corrigindo o desempenho postural e as alterações espaciais. A correção do padrão morfológico anormal será resultado da adaptação de uma forma discrepante e de uma função anômala. Para conseguir este resultado é importante remover as alterações funcionais que podem interferir no curso normal do desenvolvimento dento esqueletal (HARVOLD, 1983).
Foi demonstrado através de pesquisas experimentais que os aparelhos ortopédicos funcionais poderiam ampliar ou atenuar a variação de crescimento condilar e a variação do alongamento mandibular em aproximadamente 10% (PETROVIC, 1970).
Nesse sentido, é importante observar que aos quatro anos de idade o esqueleto craniofacial já alcançou 60% do tamanho adulto. Aos 12 anos, a idade em que alguns ortodontistas indicam o tratamento, 90% do crescimento craniofacial já ocorreu (AGUILA, 1997). Reforçando esse pensamento, Ricketts (s/d) salientou que: em 50 crianças portadoras de classe II, houve uma piora no aspecto da maloclusão de 25%, entre 3 a 6 anos.
Balters (1962) adverte que um tratamento numa idade mais jovem previne as disfunções pela liberação do crescimento, pela influencia neuromuscular e pela adaptação esqueletal. O tratamento funcional deve levar em consideração as forças naturais: do crescimento e desenvolvimento, da erupção, da postura e movimentação lingual e mandibular, para influenciar os objetivos clínicos da melhor maneira possível (SIMÕES, 1989).
Os aparelhos ortopédicos funcionais atuam bimaxilarmente modificando a posição da mandíbula e conseguindo resultados mais rápidos (SIMÕES, 1974), afinal não necessitam de apoios dentais, sendo a língua um fator decisivo para o desenvolvimento das arcadas.
Baseada nesses conceitos a ortopedia funcional vem tentar modificar a abordagem no que diz respeito à fase de intervenção frente às maloclusões, acreditando que, quanto mais precoce (dentição decídua ou mista) for o diagnóstico e a intervenção, melhor será a correção, diminuindo até mesmo o número de casos com indicação cirúrgica se tratados na idade adulta.
Referências
AGUILA, f. Juan. Crescimento craniofacial: ortodontia e ortopedia. São Paulo: Pancast, 1997.
BALTERS, W. La thérapeutique Bionator de Wilhelm Balters. Paris: Lib. Maloine, 1962.
PETROVIC, A. Recherches sur les mecanismes histophysilogiques de la croissance osseuce craniofaciale. Paris: Ann. Bio., 1970.
PLANAS, Pedro. Reabilitação neuroclusal. Rio de Janeiro: Medsi, 1997.
RICKETTS, R.M.; BENCH, R.W.; GUGINO, C.F.; HILGERS, J.J. & SCHULHOF, R.J. Técnica bioprogressiva de Ricketts. 5ª ed., Buenos Aires: Editora Médica Panamericana S.A., 1983.
SIMÕES, Wilma Alexandre. Ortopedia funcional dos maxilares. 2ªed. São Paulo: Editora Santos, 1989.
Ortopedia funcional dos maxilares. 3ªed. São Paulo, 2003.
* Samuel Barbosa Macedo é Cirurgião dentista, aluno do curso de Especialização em OFM da ABO-RO |